Como protestar com segurança (digital)

Ouvimos sempre falar dos riscos existentes nas manifestações quanto aos aspectos de violência policial e saúde pessoal. Mas e quanto a nossa segurança digital? Nesse texto, analisamos a importância de proteger e cuidar de nossa segurança digital para protestarmos e como podemos fazer isso da melhor forma para participarmos ativamente de manifestações com o mínimo de riscos possível.

Estamos em um momento esquisito da história, camaradas. No meio de uma pandemia, em quarentena, nos habituando ao tal de isolamento social e, ainda bem, em revolta. Em revolta porque o capitalismo não dá folga e, mesmo durante essa crise, a máquina estatal continua violentamente atacando pessoas negras e pobres.

A princípio, dois casos ganharam muita atenção nas mídias sociais - o assassinato do garoto João Pedro, no Rio de Janeiro, e o assassinato de George Floyd, em Minneapolis (EUA). Rapidamente, começam os protestos e manifestações - primeiro em Minneapolis, especificamente por George Floyd, mas progressivamente expandido ao redor do globo.

No Brasil, tivemos a primeira onda de protestos no domingo, dia 31 de maio, e a violenta resposta da polícia não poderia deixar mais claro o descaso com o qual o Estado burguês trata vidas negras. A segunda leva das manifestações já foi marcada com um intervalo de 1 semana, para o dia 7 de junho, e não parece que os protestos vão parar por aí.

Se você se sente confortável em participar de uma manifestação, e está em boas condições de saúde (sem possibilidade de estar contaminado com o coronavírus), vá! Participar dos protestos é de fato muito importante; claro, sempre com cuidado.

Muito já se foi falado sobre os cuidados de saúde que os manifestantes devem tomar, em relação ao uso de máscaras e à higiene pessoal, e isso é de extrema relevância no momento em que estamos. O que eu venho falar aqui, então, é sobre um outro tipo de proteção, um outro tipo de segurança - a segurança digital.

Pode parecer bobagem se preocupar com isso quando estamos protestando em revolta a assassinatos reais, à violência policial em sua forma mais bruta, mas não é bem assim. Segurança digital é segurança real; proteger nossos dados é proteger a nós mesmos.

O que acontece, então, se manifestantes são presos e têm seus aparelhos eletrônicos confiscados pela polícia? O que acontece se, após o protesto, gente como o deputado amigo de neonazi Douglas Garcia decide analisar o que foi postado nas redes sociais e enumerar publicamente quem foi às ruas? E se isso cai nas mãos dos empregadores dessas pessoas manifestantes? Sabemos bem que não é qualquer empresa que vê manifestações antifascistas com bons olhos.

Pior: e se identificam quem jogou pedra ali, quem quebrou vidraça lá? A violência pode sim ser uma manifestação legítima de revolta, mas também pode ser muito bem ilegal. E para evitar essa identificação, não basta pensarmos dentro do protesto, temos que pensar nos dados e no que chega na Internet. Temos que pensar em todos os riscos para garantir o máximo de proteção. Proteção, não se esqueçam, é sempre o foco. É pela gente.

Antes da manifestação

Antes de levar sua revolta às ruas de fato, você manifestante tem de fazer alguns preparativos. Arrumar sua mochila, por exemplo, é algo de extrema importância. Afinal, o que devemos levar? Seu primeiro instinto pode ser de considerar todas as coisas em sua casa como importantes para o protesto. Pare um pouco e pense mais; leve apenas o que você realmente precisa. E nem sempre é tão fácil definir o que é isso.

Se possível, não leve seu celular

Hoje em dia, usamos nossos celulares pra tudo. Ninguém sai de casa sem celular, então ouvir esse conselho para um protesto, momento em que estaremos mais vulneráveis, pode parecer difícil de engolir. Mesmo assim, é algo que você realmente precisa considerar.

Celulares são pequenas máquinas de rastreamento. Não preciso dizer o quão prejudicial isso pode ser em um protesto. Não só isso, eles costumam conter muitos dados pessoais e privados sobre nós, e perdê-los para uma autoridade pode significar nossa derrota. Vale a pena correr esse risco?

Vamos listar as funções positivas que um celular pode ter, para podermos discutir algumas possibilidades alternativas:

  • Comunicação
  • Registros (fotografias e vídeos)
  • Ajuda na localização (mapas)

Comecemos do mais fácil, o último item. Aplicativos de mapa para o celular de fato são uma mão na roda e facilitam muito a nossa vida, isso é indiscutível. Mas vamos lá - em uma ocasião especial, não custa nada gastar um pouco de tempo estudando em casa a região em que o protesto vai ocorrer, para não sofrer com dificuldades de localização durante o evento. Se você realmente tem dificuldade com esse tipo de coisa, leve um mapa em papel, que você pode imprimir de casa ou comprar de alguma banca de jornal que venda. Além disso, você pode levar instruções (como nas rotas dos aplicativos de mapeamento) escritas em papel, para te ajudarem lá.

Para registros fotográficos, você pode levar uma câmera digital barata, que tem a vantagem de não se conectar com a internet. Mas cuidado, lembre-se de que esses aparelhos são simples e, diferente de celulares, não costumam possuir criptografia ou bloqueio com senha. Isso significa que se você optar por levar uma câmera, terá que ser extra-atencioso e tomar bastante cuidado para não perder o aparelho e não se meter em encrenca.

Por último, a comunicação. Nesse ponto, não há alternativa simples. Em primeiro lugar, portanto, você precisa considerar por que, em que ocasiões e com quem você precisaria se comunicar remotamente durante a manifestação. Você realmente precisa dessa comunicação disponível? Que fique claro - a pergunta não é retórica e nem tem resposta óbvia, é algo que cada protestante precisa pensar com cuidado antes da manifestação.

Se a comunicação que você pretende é apenas entre pessoas que vão ao protesto com você, uma boa coisa é combinar um ponto de encontro que todas essas pessoas tenham familiaridade, para um reencontro no caso de eventuais separações.

Claro, essa não é a única possibilidade. Se você realmente precisa de um aparelho para comunicação, entenda que não levar o seu celular é mais importante que não levar nenhum celular. Como eu disse mais acima, nossos celulares guardam muita informação sobre nós, o que automaticamente cria um risco ao levarmos em protestos. Se você precisa levar um celular, considere um celular secundário com um SIM novo.

Se você ou alguém próximo tiver um celular antigo, mesmo que já não funcione muito bem, pode ser uma ótima opção! Só lembre de apagar tudo o que tiver nele, caso ainda tenha sobrado dados e arquivos pessoais antigos sobre você.

Na Internet, você pode achar celulares novos Android em torno de R$ 200 a R$ 300. Um cartão SIM com Internet também não é muito caro, e você pode comprar até em bancas de jornal. Note, estou falando de cartões sem um número de telefone, já que para comprar estes você geralmente precisa passar seus dados privados à operadora.

Por mais apropriada que sejam essas alternativas que eu passei aqui, é evidente que nem todos nós podemos aderir, ao menos não sempre. Nem todos temos como gastar esse dinheiro para uma câmera ou um celular secundário. Às vezes, não resta opção além de levar nosso próprio aparelho celular. Se esse é o seu caso, sigamos com as dicas. Se você percebeu que pode não levar um celular, clique aqui para pular as dicas de celular (para o ponto "Leve um papel com contatos de segurança anotados").

Desative o desbloqueio por biometria do celular

Hoje em dia, quase todo aparelho celular tem a opção de desbloqueio por impressão digital. Além disso, muitos trazem também a opção de desbloqueio por reconhecimento facial, o que nunca vai deixar de ser aterrorizante para mim.

É óbvio que isso agiliza muito nosso uso ao celular, mas essa biometria abre um espaço de risco gigantesco, especialmente quando estamos em protestos. Se um policial tomar seu celular, é muito fácil que ele o desbloqueie apontando para seu rosto ou colocando seu dedo à força no sensor de impressão digital. Não podemos deixar isso disponível.

Antes de sair de casa, portanto, desabilite o desbloqueio por biometria e deixe apenas o desbloqueio por senha.

Faça backup dos seus dados e os remova do celular

Pela terceira vez repetindo no texto (vamos ver se fixa na cabeça de todo mundo), celulares guardam muitas informações sobre a gente. Informações importantes, informações que não queremos que policiais ou outras autoridades tenham. Dados sensíveis que não devem ser perdidos.

Arriscar perder esses dados, portanto, é uma idiotice. Antes de se expor a uma situação em que há o risco de perder seu celular, faça o backup de tudo que for relevante para você. De preferência, deixe o backup offline, isto é, em algum hardware de sua posse, como um computador, um pendrive, um cartão de memória, etc. Quando você fizer o backup, pode remover, mesmo que temporariamente, esses dados de seu aparelho celular.

Não se deixe levar pela preguiça - não esqueça de fazer o backup e não caia na tentação de deixar esses dados na infame e medonha nuvem. Não se exponha a riscos desnecessários, camarada; protestar é coisa séria.

Ative a criptografia de disco do seu celular

Se seu celular for levado pela polícia, você pode achar que está totalmente seguro com uma boa senha de desbloqueio. O problema é que em muitos casos a polícia pode acessar seus dados diretamente pelo armazenamento do aparelho, pulando o sistema operacional que pede a senha. Alguns dados, é claro, estarão criptografados, mas nem todos.

Para nos protegermos disso, o ideal é ativar a criptografia de disco do seu celular. Isso significa criptografar todos os dados no seu celular, diminuindo muito o risco de acesso por outros. Existem guias para fazer isso no Android e no iPhone, mas eu não tenho como garantir que esses são próprios para seu exato modelo de celular, nem pretendo listar cada guia para cada modelo. Se esses guias não funcionarem, pesquise por "full disk encryption [modelo do seu celular]" que você deve achar um passo-a-passo mais apropriado.

Note que essas funcionalidades nos celulares fazem a criptografia do armazenamento nativo do celular, e muito provavelmente vão deixar descriptografados cartões de memórias externos. Alguns celulares possuem outra opção para essa criptografia, então repita a pesquisa anterior especificando o cartão de memória.

Leve um papel com contatos de segurança anotados

Essa dica é importante tanto para quem vai levar um celular, quanto para quem vai de mãos limpas. Muita coisa pode acontecer - tanto com você, quanto com seu celular - e precisamos sempre conseguir controlar os danos. Anote em um papel alguns contatos de segurança, com um número de telefone e um pseudônimo (não use sua relação com a pessoa, como "mãe").

Isso vai te ajudar, caso você perca seu celular, e vai ajudar outros manifestantes, caso algo ocorra com você. Estamos todos juntos.

Se proteja contra identificação e vigilância

Em um protesto, você não quer se destacar. Lembre-se, é uma luta coletiva que só funciona se estivermos juntos, em massa. Ninguém deve querer ficar em evidência, porque ninguém pode ficar em evidência. Na medida do possível, devemos permanecer anônimos enquanto estamos na manifestação.

Isso significa, em primeiro lugar, se vestir apropriadamente. Não use nenhuma roupa extravagante, prefira cores neutras e use a menor quantidade de acessórios possível. Se você possuir alguma característica física marcante, como uma tatuagem, ou o cabelo pintado, tente (claro, na medida do possível) cobrir esses identificadores com a roupa.

Não vamos esquecer, também, da pandemia em que estamos vivendo - todos devemos estar com máscaras, portanto, que já vão ajudar na proteção contra identificação.

Procure levar roupas extras, se conseguir levar uma mochila, para trocar no final da manifestação. Isso ajuda tanto na parte da proteção contra vigilância, te permitindo voltar pra casa com maior tranquilidade, quanto na parte do conforto, já que suas roupas podem estar suadas e até com restos de spray de pimenta, dependendo de como se der a manifestação.

Durante a manifestação

Você se preparou com cuidado e está pronto para protestar! Agora, nas ruas, que cuidados devemos tomar?

Faça registros com a câmera (mas com cuidado)

Eu vi algumas pessoas na Internet falando que não devemos tirar foto ou gravar vídeos em protestos, e devo dizer que acho absurdo. A preocupação com a privacidade dos manifestantes é essencial, mas os registros continuam sendo necessários.

Aqui, cabe uma citação ao fantástico This Is America, em que Donald Glover tão perfeitamente diz "this a celly; that's a tool; on my Kodak Black", ou, em tradução livre - "isso é um celular; isso é uma ferramenta; na minha Kodak Black". Entre outras coisas, Glover usa o verso para referenciar como celulares estão sendo usados para divulgar a brutalidade policial contra a população negra nos Estados Unidos. Afinal, se não fosse um celular filmando, o caso de George Floyd não teria tido tanta atenção.

É muito importante estar pronto para gravar e fotografar no protesto, porque abusos por parte das autoridades devem ser documentados. Não adianta depois falar que apanhou da polícia, não adianta depois contar de toda a violência - as peças estão do lado deles, nós precisamos de toda prevenção possível. Isso significa vídeos e fotos, de preferência com identificação dos policiais envolvidos (nomes no uniforme, placas de viatura etc.).

Mas e a privacidade dos manifestantes? Bem, é claro que é dever de cada manifestante a proteção mútua. Temos que tomar cuidado com nossos registros para não expormos outros manifestantes. Isso significa evitar registros desnecessários e, quando não tiver jeito desidentificar os protestantes dentro dos registros.

Uma maneira amplamente usada é borrando as faces visíveis dos manifestantes utilizando editores de imagem ou ferramentas próprias para isso. Uma dessas ferramentas é o aplicativo Obscuracam (exclusivo para Android), que permite ao usuário tirar a foto e na mesma hora borrar as faces visíveis. O aplicativo ainda disponibiliza maneiras diferentes de esconder os rostos (como tampar totalmente, pixelar etc.).

Há também o projeto Image Scrubber, de Everest Pipkin, que roda em uma página web e permite que façamos o trabalho de borrar as faces por lá. Note que apesar de rodar na web, o trabalho é feito pelo navegador, offline. É uma boa alternativa para quem não tem Android ou simplesmente não gostou do aplicativo.

Se comunique apenas com criptografia de ponta-a-ponta

Já falamos sobre evitar o celular nas manifestações. Entretanto, caso tenhamos de levar um, é importante evitarmos as comunicações que passam por servidores ou entidades que não controlamos. Isso significa não fazer ligações pela operadora telefônica, nem enviar mensagens SMS, que podem ser facilmente interceptadas.

Idealmente, devemos restringir nossas comunicações às protegidas pela criptografia end-to-end (de ponta-a-ponta), que garante que, em uma comunicação entre dois pontos, apenas esses dois pontos consigam descriptografar suas mensagens.

O WhatsApp é um aplicativo de mensagens que diz usar nativamente a criptografia de ponta-a-ponta para todas as comunicações. Uma opção ainda melhor é o aplicativo Signal - que, além de usar a criptografia de ponta-a-ponta, é completamente implementado com base na proteção da privacidade dos usuários, com funcionalidades como remoção de mensagens programada* e armazenamento controlado de metadados. Isso sem falar que *Signal é open source, ou seja, seu código-fonte é aberto a quem quiser ver, o que é sempre positivo.

Quer você escolha o Whatsapp, o Signal ou qualquer outro aplicativo, lembre-se apenas de verificar se a comunicação de fato está sendo criptografada de ponta-a-ponta. Não vale a pena arriscar.

Se precisar usar a Internet, use pelo Tor

Eu já deixei bem claro que devemos evitar ao máximo usar nossos celulares durante as manifestações, já que estamos falando de diminuição de riscos. Entretanto, nem todo mundo pode fazer isso. Se durante o protesto você precisar usar a Internet para algo além do que a comunicação via WhatsApp ou Signal pode fazer, garanta sua segurança - use o Tor.

Tor é um programa que protege seu tráfego na Internet criptografando seus dados e passando eles por uma série de nós dentro de uma rede composta por voluntários em todo o mundo, para então enviar ao servidor que você está acessando. Dessa forma, ninguém observando suas comunicações (o servidor que você está acessando, seu provedor de internet, ou qualquer outra entidade...) vai conseguir ler seus dados, muito menos descobrir de onde vieram (ou seja, que você está na manifestação).

Em celulares Android, podemos facilmente ativar o Tor com o aplicativo Orbot. Ativando o Tor pelo Orbot, toda a comunicação feita pelo seu celular - isto é, por qualquer aplicativo no celular - estará passando com segurança pela rede Tor.

Em celulares iPhone, a coisa fica um pouco mais limitada, já que o sistema iOS não permite o funcionamento de aplicativos como o Orbot. Felizmente, temos o aplicativo Onion Browser. Apesar de não proteger todas as comunicações do celular, ele serve como um navegador próprio que vai se comunicar via rede Tor. Portanto, se você tiver um iPhone, restrinja seu acesso à Internet a esse aplicativo. Vai valer a pena.

Evite deixar marcas que identificam sua participação no protesto

Quando eu falo de evitar deixar marcas que te identificam no protesto, pode parecer que estou falando de pichações, ou ações que chamem a atenção geral a você. Claro, isso pode se aplicar também, mas não é a única forma de evidenciar sua participação em uma manifestação.

O que eu quero dizer é: não faça compras. Compras são, inevitavelmente, registros de passagens por locais específicos. Isso significa levar de casa o que você pode precisar - remédios, água, alguma comida. Lembre-se, devemos ir preparados.

Claro, emergências acontecem e às vezes precisamos comprar alguma coisa. Nesses casos, prefira usar dinheiro físico em vez de cartões, já que cartões deixam sua passagem no local registrada não somente no estabelecimento, mas em seu banco.

Vá à manifestação para protestar em massa, nunca para ser lembrado.

O que fazer em caso de abordagem policial

Manifestações são complicadas. Podem ser pacíficas, violentas desde o princípio, não importa - manifestações antifascistas costumam incomodar policiais e a força do Estado de qualquer forma que forem. Sabemos bem que todos estes protestos têm a chance de acabarem com confronto policial, e devemos entender o que esse risco significa de verdade.

Em primeiro lugar, temos a violência, que nesse ponto já deve estar explicita a qualquer um que for participar das manifestações. A polícia é brutal e seu uso de força é totalmente desproporcional. Na medida do possível, procure ficar longe de policiais para fugir do risco de um ataque direto.

Obviamente, nem sempre é possível. No caso da polícia te pegar, te parar ou começar uma abordagem, o que você deve fazer? Para entender isso, vamos primeiro analisar o que pode acontecer nessas situações e o que um policial pode (no sentido legal) ou não fazer.

Em uma abordagem policial, é muito comum que os oficiais da polícia te peçam seu documento. O ideal é que você sempre ande com algum documento de identificação, no caso de alguma emergência, e se você estiver carregando um, entregue imediatamente ao policial que pediu. Após checar seus dados e conferir que não há nada errado, o policial é obrigado a devolver seu documento.

De qualquer forma, entenda que não há lei no Brasil que obriga um cidadão a carregar seus documentos na rua. Isso significa que um policial não pode te prender por não portar seu documento. Caso isso aconteça, pode se enquadrar em abuso de autoridade (de acordo com a Lei Nº 13.869, de 5 de setembro de 2019).

Se você não estiver com nenhum documento, os policiais são instruídos a perguntarem os nomes do seu pai e mãe e sua data de nascimento, para conferirem se você não é um foragido da polícia. Nesse caso, você é obrigado a se identificar corretamente, assim como o policial é obrigado a estar identificado.

Caso o policial entenda que há fundada suspeita (que, é claro, é um conceito ambíguo que favorece policiais), ele pode fazer uma busca pessoal em você - isto é, te revistar. Se você é uma mulher, você deve ser revistada por uma mulher. Entretanto, nos casos de fundada suspeita em que não haja uma policial mulher disponível, o policial homem tem permissão de efetuar a busca. Nesses casos, se houver assédio, o policial pode ser enquadrado em crime de ato libidinoso (Art. 215 do Código Penal), além de abuso de autoridade.

Se o policial quiser te prender, entenda que ele só tem o direito de te levar à delegacia em caso de flagrante delito ou ordem judicial. Em uma manifestação, não é difícil para eles enquadrarem qualquer coisa em flagrante delito, não se esqueça disso.

Além disso, você só pode ser algemado em casos flagrantes ou se for foragido da justiça. O algemamento que não se enquadra nesses casos também pode ser considerado abuso de autoridade.

Durante todo esse processo, preste atenção a como os policiais conduzem a operação. Eles não têm o direito de te xingarem e, caso o façam, podem se enquadrar no crime de injúria (Art. 140 do Código Penal), além de abuso de autoridade.

Os policiais também não têm o direito de te ameaçarem ou te agredirem para que você confesse algo. Caso o façam, o crime é tortura (Lei Nº 9.455, de 7 de abril de 1997), além de abuso de autoridade.

E por que eu estou falando tudo isso? Pra você entender que na hora, pouco importa. Você precisa saber seus direitos e prestar atenção nisso justamente porque as chances de um policial conduzir ações ilegais e praticar violência injustificável são grandes, como já sabemos. A realidade é que no momento de confronto, um policial vai agir como um policial, e para isso devemos esperar o pior possível.

Passo essas informações, portanto, não para você contestar suas ações na hora. Você não deve, de forma alguma, reagir à abordagem. Até esse momento, você pode não ter feito nada ilegal, mas se opor à prisão, mesmo que infundada, pode tipificar crime de resistência (Art. 329 do Código Penal). Se você foi pego, siga a orientação policial, mesmo que seja fundamentalmente ridícula - lembre-se que estamos falando de diminuição de riscos.

Inclusive, se durante uma busca pessoal um policial pedir seu celular, não brigue. Não vale a pena correr esse risco, afinal eles estão com as armas. É por isso que seguimos os passos anteriores de proteção ao celular, para controlarmos os danos caso percamos nosso aparelho. Se pegarem seu celular, só se lembre de se desconectar de toda e qualquer plataforma que possa estar ativa no aparelho. Isto é, se estiver logado em seu Twitter ou outra rede social no celular, lembre-se de pelo computador tirar o acesso do aparelho a todas as redes sociais. Preferencialmente, não esteja conectado a nenhuma rede social durante a manifestação.

Claro que se pegarem seu celular, ou se te prenderem sem razão, ou se te agredirem, ou se tomarem seu documento, ou qualquer outra coisa que acabei de explicar aqui, os policiais estarão cometendo crimes. Por isso, preste atenção para passar tudo para sua assistência legal posteriormente.

Se não for você sendo preso, filme. Cada abuso precisa estar documentado para ajudar o caso da pessoa em questão.

Depois da manifestação

O protesto acabou, você foi pra casa e está tudo bem. Agora está na hora de você entrar nas redes sociais e contar tudo o que você viu, tudo o que foi feito, as vitórias e derrotas. Compartilhar com quem não pode ir as fotos e vídeos de tudo que aconteceu! Bem, vamos com calma...

Considere criar contas secundárias nas redes sociais

Você provavelmente está se matando de vontade de contar tudo nas redes sociais, de divulgar hashtags expondo a brutalidade policial e tudo o mais. De fato, isso é algo que há de acontecer. Entretanto, peço que reflita um pouco se vale a pena usar sua conta principal (a que você deixa com seu nome e outras informações pessoais) para isso.

Se você entender o risco que isso pode trazer e mesmo assim achar que vale a pena, vá em frente! Senão, considere criar uma segunda conta, sem seu nome e seus dados pessoais, e usá-la sempre através da rede Tor. Nela, você pode falar à vontade e com mais segurança. Que tal? Ah, os benefícios do anonimato...

Limpe os metadados das mídias que postar

Você já está na conta apropriada e pronta para postar tudo sobre os protestos. Ótimo! Só falta agora jogar todas as fotos e vídeos que você registrou durante a manifestação nas redes sociais! É só postar e... calma aí!

Não se precipite para postar fotos e vídeos na Internet. Todos os nossos arquivos, sejam vídeos, imagens, PDFs etc., podem conter metadados. Como indica o nome, são dados sobre os dados - isto é, dados sobre o arquivo, em vez de sobre o conteúdo. Esses metadados podem dizer muito sobre você, e por isso são perigosos.

Em uma foto ou vídeo, os metadados podem indicar onde o registro foi feito e qual câmera foi usada. Até documentos Office, como uma planilha ou um texto, podem ter metadados adicionados automaticamente indicando dados sobre o autor - você.

Se você simplesmente jogar os arquivos que você tem nas redes sociais, todo mundo vai ter acesso a esses metadados; todo mundo vai ter acesso a você. Antes de publicar, portanto, devemos remover todos os metadados que pudermos de nossos arquivos.

A ideia de remover metadados no geral é sempre a mesma - criar um novo arquivo e copiar somente o conteúdo do arquivo anterior para o novo. Em alguns casos, isso é fácil - por exemplo, tirar um screenshot ou print de uma foto é, basicamente, recriar o conteúdo sem os metadados anteriores. Entretanto, essa tarefa nem sempre é fácil, já que os metadados podem estar em todo tipo de arquivo.

Por conta disso, estou inaugurando a aba de ferramentas do esquer.dev com sua primeira funcionalidade - o removedor de metadados. Ele é, na verdade, apenas uma interface para o mat2, uma ferramenta de linha de comando para remoção de metadados, escrita em Python 3.

Estou disponibilizando a ferramenta por aqui porque sei que nem todo mundo pode ou consegue instalar o mat2 diretamente em seu computador. Se você consegue, faça isso, é sempre melhor manter tudo offline. Senão, use a ferramenta no esquer.dev!

Note que o mat2 roda dentro do servidor do esquer.dev, o que significa que para nossa ferramenta remover os metadados do seu arquivo, ele precisa passar por nosso servidor. Entretanto, nenhum dado é lido ou armazenado em nosso servidor. Só fazemos a limpeza e te mandamos de volta. Depois disso ele some de nosso servidor, então fique tranquilo! Você pode, inclusive, checar nosso código-fonte, sempre aberto ;)!

Continuemos protestando!

Espero que esse guia consiga ajudar e auxiliar vocês nos próximos protestos e manifestações. A luta não é fácil, e por isso precisamos nos proteger.

Obrigado por ler até aqui e, acima de tudo: viva o antifascismo, camarada!